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domingo, 23 de junho de 2013

A QUESTÃO DAS LÍNGUAS GREGO E LATIM


http://dougnahistoria.blogspot.com.br/2010/10/o-pensamento-pedagogico-em-roma.html

O aprendizado do grego era tão importante que em alguns casos as crianças aprendiam o grego antes do latim:

Desde a tenra idade, a criança era confinada a uma criada ou a um escravo gregos [...]. Com esta ama-de-leite ou este pedagogo, ela aprendia a falar inicialmente o grego, entes mesmo de descobrir o latim: costume tão bem estabelecido que Quintiliano insiste sobre a necessidade de não tardar muito a ensinar latim à criança, com mêdo de que ela fale, em conseqüência disto, com um acento estrangeiro, perigo que não era imaginário. (p. 407)

Vemos que a presença de uma ama-de-leite ou de um pedagogo grego são importantes para que as crianças possam aprender grego da melhor forma possível.  

MARROU, Henri-Irénée. A questão das línguas grego e latim. In: ___. História da educação na antigüidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 395-410.

domingo, 16 de junho de 2013

ROMA ADOTA A EDUCAÇÃO GREGA


“Havia, pois, em Roma uma tradição pedagógica original; entretanto a educação latina evoluíu num sentido muito diferente, porque Roma se viu levada a adotar as formas e os métodos da educação helenística.” (p. 375) Então, Roma adota a educação grega, inicialmente a educação em Roma de dava em casa:

Assim a aristocracia romana adotou, para seus filhos, a educação grega: achava ela, a domicílio, pessoal docente entre os numerosos escravos que a conquista lhe proporcionava; o mais antigo exemplo disso é fornecido por Lívio Andrônico, um grego de Tarento, levado a Roma como escravo, após a tomada de sua cidade (272); foi ele alforriado depois por seu senhor, cujos filhos educara: sabe-se como a sociedade romana foi pródiga na alforria, que por um reflexo humanitário remia a barbárie desse recrutamento forçado. (p. 381)

Gregos cultos acabavam sendo escravizados e encaminhados para funções de preceptor e de professor:

Muito cedo, ao lado desta preceptoria particular, no seio das grandes famílias, apareceu um ensino público do grego, ministrado em verdadeiras escolas: Andrônico já ensina, simultâneamente domi forisque, como preceptor e como mestre-escola. Ao lado de alforriados estabelecidos por conta própria, havia escravos cujos proprietários lhes exploravam os talentos pedagógicos: um escravo capaz de ensinar era uma boa renda (Catão bem o sabia) e sobressaía no mercado. Nem todos os professôres de grego eram de origem servil: Ênio, por exemplo, nascido num município aliado de Messápia. A existência de uma clientela ansiosa por aprender logo atraiu à capital inúmeros gregos em busca de fortuna: por volta de 167, PoIíbio assinala a presença, em Roma de grande número de mestres qualificados. (p. 381-382)

Como podemos verificar na citação anterior, a capital Roma atrai também homens livres, provenientes da Grécia, que esperam conquistar fortuna.

Em Roma, ao contrario do que ocorria na Grécia, as mulheres da aristocracia tinham, por vezes, acesso ao ensino:

Não nos admiremos do papel assim desempenhado por uma mãe romana; também as mulheres tinham acesso à cultura grega; a mesma Comélia tinha um verdadeiro salão literário, aberto a tudo o que a Grécia possuía de espíritos de escol e seu caso não foi o único: parece normal a Salústio julgar Semprônia, a mãe de Bruto, o assassino de César, "igualmente versada nas letras gregas e latinas". (p. 382)

Porém, nem todos os elementos da cultura helênica, um exemplo é o modo de encara o nú na educação física: “Diante da ginástica grega, os romanos realmente reagiram corno "Bárbaros": seu pudor chocava-se com o nu e eles viam na pederastia (de que o ginásio era o meio natural) uma vergonha, e não um título de glória para a civilização grega.” (p. 385)

Com o passar do tempo começam a surgir escolas latinas:

A influência grega na educação romana revela-se muito mais extensa ainda: apresenta-se sob dupla forma; ao mesmo tempo que a aristocracia romana educa seus filhos à grega, faz dêles gregos cultos, ela duplica esta educação estrangeira com um ciclo paralelo de estudos, exatamente calcado no das escolas gregas, embora transposto em língua latina. Face às escolas em que se ensinavam disciplinas gregas, abria-se um série paralela de escolas latinas: primárias, secundárias e superiores. A aparição deste novo ensino efetuou-se, para cada um dos três graus, numa época. e num contexto histórico diferentes. A escola primária aparece desde o século VII-VI, o ensino secundário no III, o superior somente no I. (p. 386-387)

Surge a escola primária:

As origens da escola primária remontam a época muito antiga: Plutarco, sem dúvida, assegura que o primeiro a abrir urna escola paga foi um certo magister de nome Cp. Carvílio, um alforriado do cônsul de 234; mas se a informação é válida, ela concerne apenas ao caráter mercantil e público da instituição. Os pitorescos textos de Tito Lívio que pretendem referir escolas primárias do tipo clássico em Roma em 445 (449), entre os faliscos pouco depois de 400, não podem, é claro, ser levados em consideração, mas, sem dúvida, o ensino elementar das letras deve ter aparecido em Roma muito antes do IV século. (p. 387)

E a escola secundária:

Muito cedo, pelo menos, parece, por volta do tempo dos Gracos, este ensino tornou-se autônomo e foi ministrado por grammatici Latini, equiparados aos gramáticos encarregados do grego. Mas continuou por muito tempo prejudicado pela falta de prestigio e pelo pouco valor cultural dos textos explicados: o velho Andrônico continuava no programa,  Ênio disputava-lhe o primeiro lugar, mas era isto uma fraca concorrência a Homero! Pode-se conjeturar que, desde o século II, os cômicos latinos foram adotados pelas escolas: podia-se desdenhar este refôrço? E como não acolher os imitadores e êmulos de Menandro, que, aliás, estava inscrito no programa dos gramáticos gregos? (p. 389)

O surgimento de um Ensino Superior latino não é bem visto pelos grupos que tem a hegemonia, com medo de que este ensino pudesse vir a contribuir para mudanças que tirassem os seus privilégios:

Há mais: o ensino tradicional da retórica, precisamente porque era ministrado em língua grega, que supunha estudos mais longos e mais difíceis, era de natureza tal que satisfazia aos conservadores: interditar o ensino dos retóricos latinos era para eles um meio de reservar aos filhos das famílias ricas e nobres o benefício desta arte prestigiosa da palavra, tão útil nas lutas do forum que a escola marianista de L. Plócio Galo oferecia com abatimento aos jovens ambiciosos egressos do povo (p. 391)

A exceção é a medicina:

Somente o ensino da medicina acaba sendo naturalizado em Roma; mas é notável que isto tenha ocorrido em data tardia. Sob a República e durante todo o Alto Império, o ensino profissional da medicina é ministrado ainda em grego. Os tratados latinos de medicina, como os de Varrão e de Celso, apenas reconstróem este enciclopedismo prático para o uso do paterfamilias [...]. Existe um ensino oficial da medicina confiada aos médicos chefes do serviço de saúde pública, archiatri (o nome e a coisa vinham do oriente), mas era ministrado em grego. (p. 393-394)

MARROU, Henri-Irinée. Roma adota a educação grega. In:___. História da educação na antiguidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 375-394.

domingo, 9 de junho de 2013

A ANTIGA EDUCAÇÃO ROMANA


http://educacaoromana.blogspot.com.br/

O presente capítulo analisa a antiga  educação romana por volta do século VI / VII a.C.. Em relação a Grécia [...] “todo o desenvolvimento espiritual de Roma está distanciado pelo menos dois séculos do desenvolvimento do espírito grego. Sua evolução foi de modo geral paralela, porém mais tardia, mais lenta, talvez também menos radical.” (p. 357)

A educação romana desse período

era uma educação de camponeses (adaptada, é claro, a uma aristocracia). [...] A educação, para êles, é antes de tudo a iniciação progressiva em um modo de vida tradicional. Desde que toma consciência, e já por seus brinquedos, a criança esforça-se para imitar os gestos, o comportamento, os trabalhos dos mais velhos. À medida que cresce, introduz-se, faz-se admitir, silenciosa e reservada, no círculo dos grandes. Escuta os velhos falarem - sobre a chuva e o bom tempo, sobre os trabalhos e os dias, sobre os homens e os animais, - e inicia-se deste modo em toda urna sabedoria. Pouco a pouco, associa-se ao trabalho dos campos, acompanha o pastor ou o lavrador, tenta preencher seu papel e considera uma honra o fato de a julgarem digna dele. (p. 360)

O espaço institucional de tal educação é a família: “O quadro, o instrumento de tal formação é a família [...] o meio natural em que deve crescer e formar-se a criança.” (p. 361) Mesmo com o surgimento da escola, [...] “quando a instrução coletiva no seio da escola se havia introduzido desde muito tempo nos costumes, ainda se discute [...] sobre as vantagens e as inconveniências dos dois sistemas e nem sempre se renúncia ao velho método, que mantinha a criança no interior da casa paterna” . [...] (p. 361)

Porém nesse primeiro período da educação Romana é a família que irá prevalecer na educação das crianças, sendo que em Roma, diferente da Grécia, a mãe terá um papel muito mais importante

A oposição entre as duas pedagogias manifesta-se desde os primeiros anos: em Roma não é um escravo, mas a própria mãe quem educa seu filho. Mesmo nas maiores famílias, ela se honra com permanecer em casa para cumprir este dever, fazendo-se de criada dos seus filhos.
Quando a mãe não podia desempenhar sua função, escolhia-se para govemante dos filhos da casa alguma venerável parenta de idade madura, que soubesse criar em torno de si, até nos brinquedos, uma atmosfera de alto teor moral e de severidade. (p. 362)

Outro papel diferenciado da Grécia será o do pai, em Roma esse personagem terá papel ativo na educação dos filhos:
 
A partir dos sete anos, a criança, corno na Grécia, escapava à direção exclusiva das mulheres, mas em Roma era para passar sob a do pai; nada é mais característico da pedagogia romana: o pai é considerado como o verdadeiro educador; mais tarde, quando existirem mestres, a ação destes será sempre considerada corno mais ou menos assimilável à influência paterna. (p. 362)

As diferenças na educação de rapazes e moças são similares as da Grécia:

Se as môças permanecem mais em casa, à sombra da mãe, atentas em fiar a lã e aos trabalhos domésticos [...], os filhos acompanham o pai, seguindo-o até o interior da cúria, onde com êle onde com êle assistem até mesmo às sessões secretas do senado; iniciam-se ao seu lado em todos os aspectos da vida que os espera, instruindo-se pelos seus preceitos e mais ainda pelo seu exemplo. (p. 362-363)

Então havia a passagem da fase familiar para a pública

Por volta dos dezesseis anos, a educação familiar terminava. Uma cerimônia solenizava esta fase: o adolescente abandonava sua toga bordada de púrpura e as outras insígnias da infância para vestir a toga viril. Incluí-se doravante entre os cidadãos; sua formação, entretanto, não estava concluída: antes de iniciar seu serviço militar, consagrava normalmente um ano ao “aprendizado da vida pública” (tirocinium fori) (p. 363-364)

Esse aprendizado da vida pública se dava através do acompanhamento de algum homem público amigo da família.

A educação moral do jovem romano, assim como a dos gregos, era realizada através de uma série de exemplos legendários, no caso dos romanos esses exemplos são tirados da história nacional, diferente dos gregos que as tiram das obras homéricas.

Trata-se de uma educação voltada para o campesinato:

Não há, na antiga educação latina, elemento propriamente intelectual; este somente se desenvolveu sob a influência grega. O jovem romano aprende unicamente o que deve saber um bom proprietário campesino e antes de tudo a agronomia. É necessário que saiba valorizar seu patrimônio: senão cultivar ele próprio a terra, pelo menos dirigir a exploração, supervisionar o trabalho dos escravos, aconselhar seu feitor ou seu intendente. (p. 372)

MARROU, Henri-Irinée. A antiga educação romana. In: ___. História da educação na antigüidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 357-374

domingo, 2 de junho de 2013

O HUMANISMO CLÁSSICO


http://oridesmjr.blogspot.com.br/2011/12/cristianismo-e-humanismo-classico.html

O domínio da técnica tem importância, porém a educação moral é mais importânte e a antecede em termois de prioridade, isso se reflete, inclusive, na valoração do papel dos educadores. O pedagogo, apesar de sua condição de escravo tem um papel considerado mais importante

Bem significativa, a este respeito, é a evolução semantica (estimulada desde o período helenístico) que conduziu o termo "pedagogo" a seu sentido atual de “educador": na formação da infância este humilde servo empenhava, efetivamente, um papel mais importante que o mestre-escola; este último é apenas um técnico, adstrito a um setor limitado da inteligência; o pedagogo, ao contrario, acompanha a criança o dia inteiro, inicia-a nas boas maneiras e na virtude, ensina-a a conduzir-se no mundo e na vida (o que importa mais do que saber ler ...). (p. 345)

Com o tempo os profissionais da educação irão desenvolver o  ensino de seus conteúdos técnicos envoltos em uma atmosfera moralizadora

[...] o gramático que explica Homero e o retóríco que ensina a bem falar insistem de quando em quando, no sentido moralizador de seus autores ou de seus exercícios. Quanto ao filósofo na época a que chegamos, aspira ele menos a desvendar a natureza profunda do universo ou da sociedade do que a ensinar, de maneira mais prática que teórica, um ideal ético, um sistema de valores morais e o estilo de vida adequado que permite realizá-Ios. (p. 346)

Esse sentido prático que irá se configurar em um estilo de vida moralizador por parte do irá promover (ou continuar promovendo) uma estreita ligação entre mestre e discípulo

Daí a idéia de que toda formação superior supõe um laço profundo, total e pessoal, entre o mestre e o discípulo - laço em que, como vimos, o elemento afetivo, senão passional, desempenha papel importantíssimo. Isto explica o interminável escândalo causado pela comercialização do ensino, introduzida pelos primeiros sofistas, bem como a inexistência, na Antigüidade, de estabelecimentos de ensino superior propriamente ditos, que equivalessem a estas grandes lojas de cultura que são as nossas modernas Universidades: para os gregos, a escola é o grupinho fervoroso reunido pelo prestigio de um mestre, e que consolida sua unidade num regime de vida mais ou menos contubernal, propício às relações estreitas. (p. 346)
           
Por esses motivos a civilização grega pode ser caracterizada como humanista, pois

[...] o ideal clássico transcende a técnica: humano em princípio, o homem cultivado, ainda que se torne um especialista de alta qualificação, deve cuidar de permanecer, fundamentalmente, um homem. Neste ponto também, o confronto com o espírito antigo é instrutivo para o moderno. Padecemos de flagrante superestimação metafísica da técnica: talvez nos seja útil ouvir os gregos insistirem na finalidade humana, única coisa capaz de legitimar toda atividade especial. (p. 351)

MARROU, Henri-Irinée. Conclusão: o humanismo clássico. In: ___. História da educação na antiguidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 339-353.

domingo, 26 de maio de 2013

O ENSINO SUPERIOR: III. A FILOSOFIA


http://historianono.blogspot.com.br/2009/03/grecia-antiga.html

Antes de analisarmos as condições de vida e trabalho dos professores de filosofia é-nos importante compreender como estes se caracterizam, como a sociedade os vê e como querem ser vistos, pois

[...] a filosofia helenística não é apenas uma modalidade determinada de formação intelectual, mas também um ideal de vida, que pretende plasmar o homem por inteiro; tornar-se filósofo é adotar um modo de vida novo, mais severo do ponto de vista moral, envolvendo certo esforço ascético, o qual se manifesta, de maneira concreta, no comportamento, na alimentação e no vestuário: reconhece-se o filósofo por sua túnica curta, grosseira e escura [...]. Entre os cínicos, esta vontade de destoar é levada até o paradoxo e o escândalo: hirsutos, maltrapilhos e sujos, vivem eles de esmolas, como os mendigos, e afetam viver à margem da sociedade culta. Mas isto representa, apenas, uma forma e extrenusmo: de todos a filosofia reclama, efetivamente, um ideal de vida, que está em oposição com a cultura comum e supõe uma vocação profunda, direi até uma conversão. (p. 323)

Essa forma de encarar a filosofia como um estilo de vida faz com que o filósofo queira mais do que alunos, queira discípulos: “Daí o papel que desempenha, no ensino dos mestres de filosofia, o 'discurso exortativo' [...], lição inaugural que visa a recrutar discípulos, atrair a juventude para a vida filosófica” [...]. (p. 324)

            Como se dá o ensino de filosofia? “Existia, realmente, um ensino da filosofia, mais ou menos organizado.” (p. 324) Há três formas: o em escolas compostas por filósofos que foram discípulos de um determinado mestre:

[...] inicialmente, o ensino, até certo ponto oficial, que se ministrava no seio das escolas propriamente ditas, de cada uma das seitas, organizadas na forma de confrarias fundadas por mestres cujo ensínamento se perpetuava de geração em geração, transmitido por um chefe de escola [...] regularmente investido, no cargo, por seu predecessor: assim Platão havia escolhido se sobrinho Espeusipo, o qual escolhera Xenócrates, que por sua vez escolheu Pólemon, a quem sucedeu Crates ... Da mesma maneira, Aristóteles transmitiu a direção do Liceu a Teofrasto, preterindo Aristóxeno, para grande indignação deste. (p. 324-325)
                              
            A segunda forma é a de uma escola ligada a um mestre isolado
           
ensinando por sua própria conta nas cidades em que residem: assim Epitecto, também expulso de Roma por Domiciano, instala-se em Nicópolis, no Épiro, abre uma escola e não tarda a atrair e a reter ali discípulos. À imitação de Atenas, outras cidades também conseguem estabilizar o ensino filosófico escolar: encontramo-lo em Alexandria, descobrimo-Io ainda em Constantinopla, senão em Roma; mas isto se dá no fim do século III ou no século IV d. C.. (p. 325)

            O terceiro modelo é o dos filósofos que trabalham de cidade em cidade por onde passam sem um espaço institucional específico, constituindo-se em
[...] filósofos errantes, conferencistas populares, ou melhor dizendo, predicadores, que, ao ar livre, no canto de uma praça pública ou num largo, se dirigem ao auditório que o acaso e a curiosidade reúnem ao seu redor, o interpelam, improvisam com ele um diálogo familiar (do qual nascerá o célebre gênero da diatribe) [...]. Menciono este terceiro aspecto do ensino somente para constar: pois não cabe considerar esses predicantes, geralmente menosprezados, mal vistos e, amiúde, em dificuldades com a polícia, como professores de ensino superior. Terão eles contribuído para despertar vocações; mas, salvo exceções, não promoverão ensino regular e completo de filosofia. (p. 325)
                       
            Como pode ser visto na citação a cima as condições sociais desses últimos não é das melhores.

            A ligação entre o filósofo e seus discípulos, em virtude da filosofia representar um estilo de vida, não é profissional como a do retórico com os seus discípulos

[...] o ensino tinha um segundo aspecto, mais pessoal e mais vivo: o professor também falava diretamente, em seu próprio nome, e comunicava a seus discípulos o sumo de seu próprio pensamento e de sua sabedoria. [...] Enfim, e, talvez, sobretudo, havia as conversações pessoais, entre o mestre e o discípulo, a dois - ou na presença de um terceiro companheiro e amigo: ressaltei, amiúde, o caráter pessoal da educação antiga; aqui ele se se manifesta com particular nitidez. Exigia-se do filósofo que fosse não apenas um professor, mas também, e sobretudo, um mestre, um guia espiritual, um verdadeiro mentor de consciência; a essência de seu ensino não era prodigalizada do alto da cátedra, mas no seio da vida em comum, que o uma a seus discípulos: mais que sua palavra importava seu exemplo, o espetáculo edificante de sua sabedoria prática e de suas virtudes. Daí o elo, freqüentemente apaixonado, que liga o aluno ao mestre e ao qual este corresponde por uma afeição terna: foi nos círculos filosóficos que melhor sobreviveu a grande tradição arcaica do eros educativo, fonte de virtude. (p. 327-328)

Por ocasião de tais movimentos notam-se agrupamentos de estudantes, formados em torno dos mestres (cada um destes tem seu "côro" de discípulos fiéis, senão fanáticos) ou segundo seus países de origem: algo de análogo às "nações" das universídades da Idade Média ocidental. (p. 338)
           
O ensino se dá em algumas cidades, já que

Na época propriamente helenistica, não há universidades propriamente ditas (somente a partir do século IV da nossa era podemos sem incorrer em grande anacronismo, começar a usar esta palavra), mas há cidades onde inúmeros e reputados mestres atraem mais numerosa clientela de estudantes. (p. 333)

Só mais tarde é que o Estado Romano irá patrocinar estudos superiores, dentre os quais o de filosofia:

Veremos, por outro lado, que o Estado exerce, sobre o recrutamento e a organização do corpo docente, uma influência bastante direta: o Estado do Baixo Império é um Estado tentacular, que avança bem longe na via do totalitarismo; mas estamos, já, num contexto de civilização bem diverso, que nada mais tem em comum com o da época propriamente helenística. (p. 338)

MARROU, Henri-Irinée. O ensino superior: a filosofia. In: ___. História da educação na antigüidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 323-338.

domingo, 19 de maio de 2013

O ENSINO SUPERIOR: II. A RETÓRICA


http://persuasaoblog.blogspot.com.br/2010/05/persuadir.html

O presente capítulo não trás nenhuma novidade em relação aos capítulos “A contribuição da primeira sofistica”, “Os mestres da tradição clássica: Isócrates” e outros.

MARROU, Henri-Irinée. O ensino superior: a retórica. In: ___. História da educação na antigüidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 305-322.

domingo, 12 de maio de 2013

ENSINO SUPERIOR: I. FORMAS MENORES


http://www.nova-acropole.pt/a_hipocrates.html

Marrou enquadra a efebia como um curso de nível superior. Há professores contratados para o ensino, certo dizer que a quantidade e a regularidade dessas contratações dependem da cidade em questão

Seu programa é bem vasto: só se pode enquadrá-Ias na categoria de ensino superior levando-se em conta a idade dos efebos e as condições destes no final do curso escolar, pois estas conferências visavam, também, a assegurar aos jovens um complemento dessa cultura literária que nos pareceu constituir o cerne mesmo do ensino secundário helenístico. Não é somente em Atenas que se registra a presença de professores de letras [...], cuja tarefa específica é a explicação dos clãssicos, mas também em Delfos, em Priene, em Erétria, refere-se até [...], um filólogo incumbido de explicar Homero. Esse ensino critico é completado, oportunamente, 'por audições de poetas ou de músicos. As matemáticas não se acham tão bem representadas: não me é dado senão citar outra vez o caso deste astrônomo romano que no primeiro século antes de Cristo, foi pronunciar conferências no ginásio de Delfos; mais freqüente é ver, no ginásio ainda um médico proferir uma série de palestras: registramo-lo em Elatéia, em Perga, em Selêucia. (p. 293-294)

Todavia, ao lado destes visitantes ocasionais, que freqüentemente se contentavam com uma exibição única, nossos documentos parecem revelar-nos, também, professores propriamente ditos, recrutados por zêlo e, freqüentemente a expensas do ginasiarca que parecem ligados ao ginásio a título equivalente a dos instrutores militares e ministram aos efebos cursos que são seguidos durante o ano inteiro: teria havido, pois, um verdadeiro ensino, mais eficaz que as meras conferências de vulgarização, pronunciadas ao acaso das circunstâncias.
(p. 294-295)
           
O texto também nos apresenta o Museu de Alexandria, escola de nível superior dedicada aos altos estudos científicos, porém essa instituições se trata de uma única exceção, sem caracterizar uma realidade presente em toda a Grécia.

Outro ensino de nível superior é o de medicina. O curso de medicina é o menos valorizado socialmente, em relação à retórica e à filosofia. O aluno se liga ao professor e acompanha este nas suas tarefas, a medida que o mestre vai fazendo atendimentos ele vai explicando as técnicas aos discípulos, e esses a medida que vão aprendendo passam a ajudar o mestre realizando pequenas tarefas, isso tudo até que o discípulos tenha adquirido todo o conhecimento necessária a prática da medicina. Não há registros a respeito das condições de remuneração e de vida do professor.

MARROU, Henri-Irinée. O ensino superior: formas menores. In: ___. História da educação na antigüidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 292-304.

domingo, 5 de maio de 2013

OS ESTUDOS CIENTÍFICOS


http://noticias.terra.com.br/ciencia/pesquisa/cientistas-estudam-lenda-de-espelho-grego-que-queimava-navios,86b85b6db16da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

Como já foi visto ao estudarmos as contribuições de Isócrates e Platão para a educação, ambos defendem o estudo das matemáticas (geometria, aritmética, música e astronomia). Essa recomendação irá ser aceita pela sociedade da época e se fará presente no período helênico.

Mas estudará também matemáticas e sabemos até os nomes de seus mestres, Autólico, o músico Xanto e o geômetra Hiponico, além do que a história registra, a propósito dos dois primeiros, que ele lhes seguira cursos antes de proceder à decisiva escolha entre filosofia e retórica, as duas formas rivais de ensino superior: tais estudos matemáticos inscrevem-se, pois, no caso particular de Arcesileu, no período que corresponde ao ensino secundário. (p. 286-287)
           
Porém, com o tempo essas disciplinas passarão a serem ministradas de modo mais superficial e de maneira mais literária do que cientifica. Nisso veremos mais uma vez um professor invadir o campo de trabalho do outro, não o professor de um nível invadindo outro, mas de uma área do conhecimento em outra. Mais uma vez o acusado trata-se do gramático:
  
Eis um ponto de capital importância: se a astronomia ocupa um lugar de certo destaque no programa das escolas secundárias, tal lugar ela deve a Arato, e é sobre a forma de uma explicação de texto de uma explicação essencialmente literária, que ela ali aparecia. Não obstante certa resistência da parte dos matemáticos, parece que o gramático, ou melhor, o professor de letras conseguiu, praticamente, eliminar os geômetras e outros professores especializados nas ciências. (p. 290)
           
Como podemos ver essa intervenção do gramático em outras disciplinas causou drástica redução das oportunidades de trabalho para os professores de algumas das matemáticas.

MARROU, Henri-Irenée. Os estudos científicos. In: ___. História da educação na antigüidade. São Paulo: EPU, 1975. p. 275-291.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

NOVAS POSTAGENS

A partir de hoje nossas postagens não serão mais diárias, mas semanais. Isso se dá em função das dificuldades em realizar postagens todos os dias. Começaremos a publicar sempre aos domingos novas informações sobre a constituição histórica da profissão docente.